
Investimentos, desigualdade e boa fé: Do café para os investimentos, Addis Abeba esta vivendo um recente “boom” de capital estrangeiro. No ano de 2007, o índice de performance de IED* no pais chegou a 92, frente a 91 no México, 88 na China e 97 no Brasil. De acordo com os numeros e boatos, os chineses e indianos estão com a bola da vez: dos 328 investimentos estrangeiros no pais, 30% são chineses, comparados a discreta fatia de 8% do "tio sam" e ao 1,8 bilhoes de dolares investidos peloas 153 empresas indianas operando no pais. Assim, ja se faz possível notar prédios e mais prédios sendo construídos cidade afora, e gruas rasgando o horizonte na “Ethio-China Road”, construída, segundo os etíopes, em tempo recorde por mão-de-obra inteiramente "made in China”; bem, como hora e outra, se deparar con conterrâneos de Gandhi pelas ruas e casas noturnas da cidade.

No galope do crescimento Etíope (apesar de descrecente, positivo), fato é que a desigualdade e pobreza também são marcantes. Com exceção da sua majestade o Primeiro Ministro que governa o pais desde 1991 em um regime de semi-ditadura, de dezenas de atletas corredores etíopes que fizeram seu pé de meia com suor e muita correria, dos expatriados da cooperação internacional e mais um bocado de empresários aliciados pelo governo, 76% da população é monetariamente pobre e vive com menos de dois dólares ao dia. Entretanto, como quaisquer outros paises desiguais que se preze, a cidade tambem tem seus Oásis de apparteid social: Hilton, seu mercadinho de delicatessen e maquinas de ATMs, o Boston Spa Club e suas dezenas de opções de massagens, três shopping centers, resturantes para dar e vender, e a disputada piscina do Sheraton nos fins de semana - pela bagatela de 180 biir (moeda local) ao dia, equivalente a 20 dólares americanos (preço do ônibus: 0,70 birr/cafezinho: 3 birr/ boate local: 20 birr).

Familia de "camponeses-mirins" subindo a "Montanha-lar" Ashtam Maryam (a 2.400 m)
Assim sendo, ai é que esta mais uma incrível peculiaridade e riqueza da Etiópia: seu povo (seguido pela culinária que merece um capitulo a parte) e comportamento, que desmonta muitas teorias acadêmicas e “policies” de agencias multilaterais sobre pobreza. Fato é, que em Etiópia, apesar do alto índice de extrema pobreza, e de certa forma, miséria; as taxas de criminalidade e violência são praticamente zero. E isto não é apenas baseado em dados ou econometria dos “cabeças de planilha” de plantão (como diria Luis Nassif), mas, andar pelas ruas de Addis, seja homem ou mulher, etíope ou estrangeiro, a qualquer hora do dia ou da noite é normal e corriqueiro, esteja o sujeito de terno com laptop em baixo dos braços, ou de chinelo pastoreando seu rebanho de cabritos pelas ruas da cidade.
Arriscaria dizer que o que esta por tras dessa façanha rua afora é a religiao e principios morais verdadeiramente arraigados na sociedade. Em Etiópia, mulçumanos e cristãos fazem suas rezas, pedem suas bênçãos, adoram seus deuses, e são vizinhos, amigos, conhecidos e desconhecidos, numa cidade onde a maioria é cristão efervescente (ortodoxo, católico e evangélico), mas tambem, onde em todas as matinas e fins de tarde o soar das mesquitas e seus alto-falantes dão o ar da graça e se fazem escutar a metros e kilometros de distancia - como que em um chamado e uma comunhão, celebrando o respeito à diversidade e dando tom a letra do compositor pernambucano Lula Queiroga: “Cada ser tem sonhos a sua maneira”...
* IED = Investimentos Estrangeiros Diretos
** Fotos: arquivo pessoal
*** Em breve: partes III e IV
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